Inferno em pessoa

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Deambulo pela noite mais fria,
Sem medo do inerte irrevogável,
Porque eu não parto do impossível
Mas sim do impensável,
De um inferno em pessoa…
Que não te caracteriza mas que magoa
E quando te estiveres a recompor
Ele vai estar lá para te mandar abaixo,
Para se certificar que vais estar onde mereces:
Num lugar onde não te livras de sorte boa,
Pelos pecados que fizeste a esse inferno em pessoa.

Afinal de contas esse inferno em pessoa
Sou eu.
Sou eu quem te tem tido nas mãos,
Brincado com o teu destino
Tal como tinhas feito com o meu.
Agora deves estar a pensar
Nas infinitas possibilidades desta cartada
Ter sido a primeira a ser revelada.
Agora, bem…agora estás nesse lugar que mereces,
Retalhada por uma predestinação
Que te é alheia.

Bom… afinal é só um ajuste de contas.
Afinal tu passaste a marioneta
E eu a este inferno em pessoa.

A partir do ódio

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Parto num escuro sombrio,
Na mais nefasta hora,
Enquanto julgo nem de mim saber,
Trôpego avanço em direção
Ao que a visão não alcança,
Do que não vês mas que acontece.

Parto na mais tenebrosa hora,
Parto percorrido por uma lucidez,
Um sentimento tanto ao pouco amargo,
Que me dá raiva a cada passo,
Esbofeteei a vida, espanquei
E embriaguei-a,
Pergunto-lhe o porquê
E aposto que nem ela tem respostas,
Aposto que está tão confusa
Quanto eu.

Parto e faço-o em boa hora,
Faço-o enquanto o impacto é recente,
O ódio a correr em mim,
A raiva a apoderar-se aos poucos…
Dou por mim fustigado mas feliz
Porque em boa hora parto.

Quis vender-te antes de te comprar

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Saí de casa sucumbido pela sorte,
Dirigi-me à tabacaria mais próxima
E encontrei-te por lá,
Nunca te tinha visto por ali,
Mas este meu vicio…
Ambicionei ter-te antes de te conhecer,
Quis-te vender antes de te comprar.

Na esperança de conseguir absorver
Toda esta ânsia efémera de te negociar,
Peguei no jornal e revirei-o,
Li as letras grandes dos títulos
Como se de uma manobra de diversão
Se tratasse.
Quis interpelar-te suavemente,
De modo a que não me tomasses
Por um boémio mediador
Que tem a visão de fazer antes de ter;
De despachar antes de possuir;
De vender antes de comprar.

E no ato da consumação do nosso negócio,
Veio a quem te vendi antes de te comprar,
Para me tirar o que era meu sem ser,
Trespassando-te sem ao menos
Te ter nas mãos…

(Tudo isto para me mostrar
Que quem quer sem desejar,
É como quem vende antes de comprar.)

 

Prostituição de carácter

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Vejo como prostituem o carácter,
Como o vendem sem escrúpulos,
Sem remorso ou talvez piedade,
Esgueiro-me deste surto de decência,
Que ofusca o vulto desta cidade,
Que se passeia no vagar da paciência,
Fazendo do que escrevo arte,
Mas tiro-me desta sina
E faço-me capitão deste embarque.

Salvo-me uma e outra vez,
Afasto-me desta rota da embriaguez,
Aquela que ainda me leva a algum lado,
Um lado amargo…ora amargo, ora doce,
Numa penumbra de sorte;
Num travo forte;
Numa sombra ténue e nefasta
Que me arrasta e que me afasta
Das minhas ideias em desarrumo,
Parto para um trilho mais seguro,
Onde esta prostituição,
Está longe deste rumo.

Olhos da embriaguez

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Sou um alcoólatra sem norte
Preso num copo de balão.
Sou os olhos da embriaguez,
A temeridade da solidão.

Sou um terminal de pensamentos,
O atordoamento vazio do cérebro,
Sou a rosa dos teus ventos,
Vento passageiro onde me quebro.

Sou o fado triste que não demora,
A sina das duvidas e dos talvez,
Sou a interrogação do vazio,
E transformo certezas em porquês.

Sou um barco num mar de fúria,
Preso nas ondas da tempestade,
Sou a cruel rapidez do tempo:
E regressa a mim a sobriedade.

Fui morrer, volto já!

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Hoje saí de casa e apeteceu-me morrer;
Abri a porta ainda meio zonzo
Como se estivesse a acordar,
Avancei trôpego por cada esquina,
Tropeçando nos paralelos
Daquela calçada desnivelada.

Segurava-me por vezes
Nos postes que iam aparecendo,
Numa busca incessante
Do motivo que me tinha levado
A sair de casa.

Sabia bem ao que ia,
Tanto sabia, (e sei)
Que deixei aquele papelinho na porta.
Sabia ao que ia
Mas nunca soube como se fazia.

Sempre me falaram na morte,
Mas… como se morre?
Quem é ela?
O que sentes?
O que fazes lá?
Se é bom morrer?
É! E eu que o diga.

Sou tudo aquilo que não querias que fosse

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Sou uma máquina de forças,
Sou o cabelo mal aparado,
Sou a tinta ressequida que vês por aqui,
Sou tudo aquilo que não querias que fosse,
Sou egoísta ao ponto de dizer que sou meu,
Sou o ódio na carne, sou os olhos da embriaguez,
Sou quem me motiva e quem me mutila,
Eu que nunca pedi nada a ninguém,
Eu que sempre abdiquei do bater do coração
Em prol da vanguarda dos meus.

Sou uma máquina de forças…
Falo porque sinto…mas é o que faço sentir?
Instiguei o mais intimo profundo,
Detonei a base deste equinócio
E pus-me defronte ao sol.

Agora que os meus poros se abriram
Resta-me secar o corpo…
Cada gota de suor tem um motivo,
Dentro de cada motivo uma razão.
A razão de assim ser.

E eu que sempre quis ir sozinho

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Vem e eu faço-te ficar.
Navegar sem barco
Nem sempre é fácil,
Num mar onde as ondas
São sonhos de onde
Não consegues sair,
Onde não te consegues soltar,
Como se fossem braços
Que te possuíssem o corpo
E ficasses envenenado
Com aquele abraço mudo.

Vi-te sair pela porta.
Agora que arranjei barco
Não tenho forças para remar,
Neste mar onde o vento
Não sopra a meu favor,
Onde os sonhos desvanecessem as velas,
E te fazem tremer quando dormes.

E agora dou por mim sentado,
Com um cigarro por companheiro,
A naufragar neste mar de culpa.
A culpa de dar por inteiro,
Do sacrifício à emoção.

Ponho fim a esta tripulação
De sentimentos.
Ponho fim a este embarque de luta.
Decido ficar por aqui.

Caneta de Morte

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Hoje emaranhei a morte.
Peguei numa caneta e escrevi,
Escrevi até me doer a alma,
Escrevi enquanto a essência brotava,
Sucumbi perante o abismo de letras,
Tropecei nas rimas;
Caí nas entrelinhas
Que nasceram de uma metáfora.

Arre! Estou farto desta caneta!
Atrapalhaste-me este plano,
Esta morte predestinada
Por uma vida que muitas vezes existiu.
Nem este ar quente
Que me esbofeteia,
É capaz de secar essa tinta
Que adia o meu destino.

Desenlacei-te de mim,
Da minha mão.
Agora vou poder
Prosseguir com esta minha sina.
Tornaste-te uma peripécia
Quando apareceste por aqui.

Vou reerguendo este plano.
Começo a esboçar o troço
E tudo me sai em verso.
Deixaste a tua marca em mim
E não me consigo livrar de ti.

Decidi então rimar a morte.

Casa de Fumo

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Permaneço nesta casa de fumo
Onde vejo o futuro desvanecido,
Mantenho a vida em desarrumo,
No meio deste cérebro entorpecido
Sou eu que lhe faço o resumo,
Do que é este desconhecido
Que não vive nem tem rumo,
Que é este fumo enlouquecido.

Sinto o fumo a navegar-se em mim,
A aniquilar-me o sangue e as veias,
Enquanto, aos poucos, me põe fim,
Refresco a originalidade e as ideias,
Deixando-me a cabeça em frenesim,
Como se estivesse preso entre teias,
Sôfrego e louco, decido ficar assim,
No mar revolto, nas marés cheias.

Este fumo que ergue esta casa,
É o que me tinge de negro o teto;
Que me escalda como uma brasa;
Que é um tribunal de livre decreto,
É um obstáculo que me atrasa,
Que não consegue ser discreto,
Mas é a mim que me arrasta a asa,
Para divulgar o que é secreto.